Maremotriz: 98% da Energia Oceânica

Um sistema maremotriz produz eletricidade com a subida e a descida das marés. A água atravessa turbinas ligadas a geradores, e a gravidade da Lua e do Sol garante a regularidade do ciclo. A tecnologia já opera em escala comercial. A IRENA (2020) registra 521,5 MW de usinas de barragem no mundo, mais de 98% de toda a capacidade instalada em energia oceânica. A maior delas é Sihwa Lake, na Coreia do Sul, com 254 MW em operação desde 2011. Este guia explica o funcionamento, os custos e os limites da tecnologia. Também mostra onde o Brasil entra nessa história.

Perguntas que o guia responde:

  • O que é um sistema maremotriz e como ele funciona?
  • Qual o papel da Lua e do Sol na geração?
  • Como é o passo a passo de uma usina de barragem?
  • Quais peças fazem a usina funcionar?
  • Barragem ou turbina de corrente marítima: qual a diferença?
  • Quais são os desafios econômicos e ambientais?
  • Como proteger peixes e animais marinhos?
  • O Brasil tem potencial para a energia maremotriz?
  • Quais são as vantagens e os dados do setor?

O que é um sistema maremotriz e como ele funciona?

Pense numa hidrelétrica instalada na costa. A lógica é parecida, mas quem enche o reservatório é o mar.

Na maré alta, a água entra no reservatório e passa por grandes turbinas. Na maré baixa, o caminho se inverte. A água volta ao mar e move as turbinas no sentido contrário. Esse fluxo aciona os geradores elétricos da usina. Cada projeto ajusta o ciclo ao local e ao tipo de equipamento.

Costa rochosa em maré baixa com barragem maremotriz de concreto ao fundo, e marcas de umidade que mostram a variação da maré

A IRENA (2020) aponta a previsibilidade como um dos principais benefícios das energias oceânicas. Ela vem do movimento da Lua, que se conhece com antecedência. O vento e o sol mudam a toda hora. A maré, não. Na prática, essa regularidade pesa mais para quem planeja a rede elétrica do que a potência de uma turbina isolada.

Previsibilidade é o maior trunfo da tecnologia.

Qual o papel da Lua e do Sol na geração de energia maremotriz?

A gravidade da Lua e do Sol puxa a água dos oceanos. Com a rotação da Terra, essa atração forma as marés altas e baixas. A IRENA (2020) explica que esse movimento do nível do mar pode virar eletricidade.

Em geral, a diferença entre maré alta e baixa fica abaixo de 1 metro. Em pontos específicos, ela passa de 20 metros (IRENA, 2020). Quanto maior a variação, maior o potencial energético. Poucos países reúnem as condições necessárias.

Segundo o mapeamento da IRENA (2020), as áreas de maior recurso incluem Argentina, América Central atlântica, França, as duas costas da América do Norte, Coreia do Sul, Rússia e Reino Unido. Onde a maré é fraca, há pouco a aproveitar. Em realidade, escolher o local pesa mais do que escolher o equipamento.

Sem variação ampla de maré, o potencial fica limitado.

Como é o passo a passo de uma usina maremotriz de barragem?

A usina de barragem segue quatro etapas ao longo do dia:

  1. Enchimento (maré alta): o mar fica acima do nível do reservatório. As comportas abrem, e a água entra com força e gira as turbinas.
  2. Retenção: quando a maré atinge o ponto mais alto, as comportas fecham. A água fica presa até o mar, do lado de fora, começar a baixar.
  3. Esvaziamento (maré baixa): as comportas abrem de novo. A água retida volta ao oceano, passa pelas turbinas outra vez e gera mais energia.
  4. Fim do ciclo: o sistema espera a próxima maré subir e recomeça.

Girar a turbina é a parte fácil. Sincronizar as comportas com a maré, dia após dia, dá mais trabalho. Sistemas computadorizados controlam esse ritmo em tempo real.

Quando a usina aproveita os dois sentidos do fluxo, a produção diária aumenta.

Quais peças fazem uma usina maremotriz funcionar?

Três conjuntos formam o núcleo da usina: turbinas, geradores e transformadores.

As turbinas funcionam como hélices gigantes e giram devagar. Os geradores ligados a elas convertem o giro do eixo em eletricidade. Os transformadores da própria usina elevam a tensão, e só então a energia segue pelas linhas até casas e indústrias.

Na turbina de corrente marítima, o equipamento fica submerso no fluxo. A IRENA (2020) compara o princípio ao de uma turbina eólica debaixo d’água. Há alguns anos, uma turbina de maré tinha cerca de 100 kW. Hoje, unidades de 1,5 MW já foram instaladas em projetos reais (IRENA, 2020).

Turbina de corrente marítima usada em energia maremotriz, com três pás de aço sobre estrutura no fundo do mar e feixes de luz na água

Verdadeiramente, escolher a turbina vem depois de entender a corrente ou a variação de maré do local.

Turbina, gerador e transformador formam a cadeia que leva a energia do mar até a rede.

Qual a diferença entre barragem e turbina de corrente marítima?

Existem duas formas principais de captar a energia das marés. A barragem aproveita a diferença de altura entre maré alta e baixa. A turbina de corrente aproveita a energia do fluxo da água em mar aberto.

CritérioSistema de barragemTurbina de corrente marítima
Como funcionaRetém a água numa bacia e a libera pelas turbinasUsa o fluxo das correntes diretamente
Maturidade (IRENA, 2020)Em operação desde os anos 1960Perto da maturidade comercial
Capacidade instalada (IRENA, 2020)521,5 MW10,6 MW
Principais entraves (IRENA, 2020)Poucos locais, investimento alto e impactos ambientaisCusto ainda alto e dificuldade de financiamento
Exemplo realSihwa Lake (Coreia do Sul)MeyGen (Escócia)

A turbina de corrente precisa de fluxo de pelo menos 1,5 a 2 metros por segundo (IRENA, 2020). O projeto MeyGen foi a primeira matriz comercial de várias turbinas do mundo. Ele fica no canal entre o continente escocês e a ilha de Stroma.

Existem ainda as lagoas artificiais, cercadas por muros. Os projetos de Cardiff e Swansea, no País de Gales, avançam devagar, e o governo britânico ainda não aprovou os planos, segundo a IRENA (2020). Na implementação, o que define a escolha é o local, não a preferência por um modelo.

A barragem domina a capacidade instalada, mas a turbina de corrente cresce mais rápido.

Quais são os desafios econômicos e ambientais das usinas maremotrizes?

O principal obstáculo é o custo. A IRENA (2020) estima o custo nivelado da energia das marés entre US$ 0,20 e US$ 0,45 por kWh. O relatório considera esse valor alto demais para competir com outras renováveis. As metas europeias miram US$ 0,11 por kWh. A IRENA espera chegar lá entre 2022 e o início da década de 2030.

As barragens enfrentam três limites, segundo a IRENA (2020): poucos locais disponíveis, investimento alto e impactos ambientais. O relatório observa que nenhuma barragem de porte relevante foi construída em quase dez anos.

O financiamento também pesa. Em 2019, o Canadá revogou a licença do projeto Cape Sharp, de 2 MW, por problemas financeiros (IRENA, 2020). Outras desenvolvedoras de turbinas e de equipamentos de ondas faliram.

A IRENA (2020) lembra que parte desse custo extra pode se justificar. A previsibilidade e o fornecimento estável têm valor para a rede. Na realidade, olhar só o preço do kWh de hoje mostra metade do quadro.

O custo ainda é alto, mas o valor da previsibilidade entra na conta.

Como proteger peixes e animais marinhos em uma usina maremotriz?

Tudo começa antes da obra. A IRENA (2020) recomenda que os reguladores ofereçam diretrizes claras para a avaliação de impacto ambiental. O relatório também defende o planejamento espacial marinho, que define onde cada tipo de projeto pode ficar.

O tipo de tecnologia influencia o impacto. Turbinas de corrente ocupam a água aberta e não exigem uma parede de quilômetros. A barragem, por outro lado, altera o escoamento e entra na lista de impactos citados pela IRENA (2020).

O caso de Sihwa mostra que o efeito nem sempre é negativo. Segundo a K-water (2023), a troca de água do mar pela usina ajuda a melhorar a qualidade da água do lago.

A IRENA (2020) também registra um ponto a favor: a tecnologia fica submersa e não altera a paisagem. Isso tende a ajudar na aceitação social.

Avaliação ambiental, escolha do local e consulta pública vêm antes de qualquer turbina.

O Brasil tem potencial para usinas maremotrizes?

Tem, mas o potencial ainda está pouco mapeado. A EPE (2018) descreve a energia oceânica como tecnologia recente, ainda a caminho do uso comercial. A nota técnica estima o potencial brasileiro de ondas e marés em 114 GW, a partir da extensão do litoral e da altura média das ondas.

Esse número soma as duas fontes e não separa o que vem das marés. Por isso, ele não responde sozinho à pergunta sobre usinas maremotrizes.

Um trabalho apresentado no CONTECC (2025) aponta marés de 4 a 5 metros no Amapá, no Pará e no Maranhão. O mesmo estudo registra que o país ainda não tem usinas maremotrizes. Ele também sugere que projetos desse tipo poderiam entrar no Reidi, o regime de incentivos à infraestrutura, mediante adequação da legislação.

Na prática, o gargalo brasileiro é de dados e de política pública, antes de ser de engenharia.

O potencial existe, mas falta separar o que é maré do que é onda.

Quais são as vantagens e os dados da energia maremotriz?

A principal vantagem é a previsibilidade. A IRENA (2020) afirma que a energia oceânica complementa o vento e o sol e oferece capacidade firme à rede.

A segunda vem da densidade da água. A água do mar é mais de 800 vezes mais densa que o ar (Environmental Health Perspectives, 2007). Isso facilita a captação de energia do movimento da água.

O potencial teórico é grande. Somadas todas as tecnologias oceânicas, a IRENA (2020) estima entre 45.000 e 130.000 TWh por ano. É mais que o dobro da demanda elétrica mundial de 2019, de 25.814 TWh. As marés ocupam a menor fatia: 1.200 TWh por ano, por causa da limitação geográfica.

No cenário mundial, a IRENA (2020) conta 31 países com projetos instalados ou planejados. A Europa lidera, e o Reino Unido é o destaque em turbinas de maré. O Canadá opera a usina de Annapolis, de 20 MW, desde 1984. A Baía de Fundy e as ilhas Orkney abrigam centros de teste, e a IRENA espera cerca de 10 GW de energia oceânica até 2030, se os desafios forem superados.

Previsibilidade, densidade da água e vasto potencial teórico sustentam o interesse global.

Perguntas Frequentes sobre o Sistema Maremotriz

Qual é a maior usina maremotriz do mundo?

Sihwa Lake, na Coreia do Sul, com 254 MW, em operação desde 2011 (IRENA, 2020). Ela superou Rance, na França, que tem 240 MW e funciona desde 1966. Rance liderou por 45 anos.

Qual a diferença entre energia das marés e energia das ondas?

A energia das marés vem da gravidade da Lua e do Sol. A das ondas vem do vento, que transfere energia à superfície do mar (IRENA, 2020). Muitos equipamentos de ondas são boias que flutuam e seguem o movimento da água. A tecnologia de ondas é menos madura que a das marés.

A energia maremotriz é renovável?

Sim. A IRENA (2020) classifica a energia oceânica como renovável e reconhece seu papel na redução de emissões. A usina substitui geração fossilizada. Os impactos locais da construção, porém, exigem avaliação ambiental.

A usina maremotriz gera energia à noite?

Gera. As marés não dependem da luz do dia nem do clima. Elas seguem ciclos astronômicos e podem ser previstas com muita antecedência (IRENA, 2020).

Quanto custa a energia maremotriz?

A IRENA (2020) estima o custo nivelado da energia das marés entre US$ 0,20 e US$ 0,45 por kWh. As barragens exigem investimento inicial alto. O valor final depende do local e do tamanho do projeto.

Conclusão: a energia maremotriz vale o investimento?

A energia maremotriz é uma das fontes limpas mais previsíveis que existem. O custo e a escassez de bons locais ainda travam a expansão. A própria IRENA (2020) espera que as turbinas de corrente ganhem mais espaço que as barragens nos próximos anos.

Para o Brasil, o passo mais útil agora é mapear melhor as marés do litoral Norte, separando-as das ondas. A estimativa oficial da EPE (2018) ainda junta as duas fontes. Sem esse dado, qualquer projeto parte às cegas.

Disclaimer: os valores apresentados são estimativas e projeções de fontes setoriais e podem mudar com a regulamentação e o mercado. Este conteúdo é informativo e não substitui análise técnica, financeira ou jurídica para decisões de investimento.

Fontes e Referências

  • IRENA (International Renewable Energy Agency). Innovation Outlook: Ocean Energy Technologies. Abu Dhabi, 2020.
  • EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Nota Técnica PR 04/18 – Potencial dos Recursos Energéticos no Horizonte 2050. Rio de Janeiro, 2018.
  • K-water (Korea Water Resources Corporation). Clean Energy: Sihwa Tidal Power Plant (página institucional, dados de dezembro de 2023). 2023.
  • Environmental Health Perspectives. Blue Power: Turning Tides into Electricity. 2007.
  • CONTECC / Confea. Energia maremotriz à luz do REIDI: um estudo sobre incentivos e expansão energética sustentável. 2025.

Autor: Energy Vision Hub

Última atualização: Outubro/2026

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